Os filhinhos de papai que mataram Orelha
Evito chamar de monstros os quatro jovens que torturaram e mataram por diversão o cão Orelha. Não para diminuir as atrocidades que cometeram. É o contrário. Precisamos encarar a realidade e não jurar vingança. Eles não nasceram assim. Meninos se espelham no pai em primeiro lugar. Pai omisso e ausente? Violento, sem empatia? Corrupto, misógino?
A sociedade está parando de culpar sempre a mãe. Felizmente. “All her fault” é título irônico da minissérie que precisa ser vista pelas famílias. Porque é “all his fault”.
Depois do pai, o menino se espelha nos colegas da escola. Nos amiguinhos. Na turma do futebol. Nos hábitos masculinos. Na “machosfera” digital. Ele quer ser aceito. Escolhe ser do bem ou do mal, escolhe seus influencers.
Se não tiver limites na infância, se o pai sempre acobertar desvios, usar de influência e dinheiro para ele sair impune, não controlar o uso das redes sociais e dos games que estimulam barbáries, o risco de delinquência é alto.
Lamento apontar o dedo para a metade masculina do mundo. Mas seria surpreendente se os culpados pela barbárie contra Orelha fossem quatro meninas. Já pensou nisso?
Não são violentos todos os homens, mas eles estão presentes na maioria absoluta dos crimes violentos. Sabemos o porquê. A resposta não está na genética. Mas na educação – ou falta dela. Em casa e na escola. Está no que se espera de um homem. Está numa sociedade que exalta a masculinidade tóxica.
Na série “Adolescência”, é um menino, Jamie, de 13 anos, que assassina uma colega com a faca de outro menino. Nos exércitos, nas guerras, na polícia letal, são homens. Nas ruas de Minneapolis, são homens do ICE que executam a tiros cidadãos, no volante do carro ou prostrados na calçada. Nas ruas de Brasília, foram jovens homens que incendiaram o indígena Galdino por “brincadeira”. Há 30 anos. Não imagino meninas nisso. Por quê?
É quase impossível que, antes de torturar Orelha, esses jovens já não tivessem apresentado desvios. Tentaram afogar outro cão no mar. Os pais sabiam? Talvez fossem vistos como os fodões do bairro em Florianópolis, ninguém mexia com eles porque os pais têm dinheiro e poder, são amigos de juízes e acham que lei é coisa pra pobre. Nisso, têm razão.
Então, houve sinais antes, outros atos ilícitos considerados travessuras. Uma criança que sente prazer em maltratar animais, jogar pedra, pau, atingir pássaros com estilingue, precisa ser entendida e coibida. Um dia pode fazer pior com bichos e com gente.
Se nada for feito, um dia esses meninos vão matar gari e fugir para a academia, vão dopar e estuprar menina na balada, vão espancar mulher no elevador e no quarto, vão atropelar com Porsche e não socorrer, vão queimar vivo um mendigo.
Quando leio os comentários nas redes sobre o que fazer com os assassinos de Orelha, sinto horror. Não temos justiça em lugar nenhum, nem a oficial nem a do povo. Querem linchar. Colocar os quatro numa jaula com cinco pitbulls. Empalar como fizeram com o Orelha. Executar em praça pública.
Sim, o crime foi hediondo. Eles martelaram a cabeça de Orelha com pregos, enfiaram um pau atravessando o corpo, até a garganta, e destruíram sua cara com pauladas. O cãozinho foi encontrado agonizando, e a veterinária fez a eutanásia. Só não vou chamar de monstros sem cura, porque seria tirar a responsabilidade do grupo e desistir de mudar a sociedade.
Primeiro, é preciso investigar o papel de cada um, reter passaporte, proibir viagens, prender. E depois, anos de medidas socioeducativas, como trabalhar 12 horas por dia num abrigo de animais. Acredito nisso.
Monstros moram no pesadelo, na ficção. Monstros humanos vão para o hospício porque não controlam o que fazem. Esses aí, premiados com viagem para a Disneylândia, são sobretudo filhinhos de papai.

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